cartas e palavras livres

Domingo, Junho 21






Uma mulher persistente





Era uma tarde comum, sequer olhei para o céu para constatar a previsão do tempo


Sei que sai de casa às 15h, com algumas contas para pagar e com o plano de voltar o mais rápido possível para a casa.





A primeira situação que me fez perceber que algo de ruim aconteceria foi o fato de estar indo a um lugar que nunca chegava... Estava de ônibus e até mesmo o motorista desconhecia o endereço. Alguns passageiros me informaram:





- É longo, muito longo...





Mas como sou persistente, pensei, logo estarei lá. Estava indo para uma imobiliária, pagar o aluguel, depois de quase 40 minutos no ônibus, finalmente cheguei.


Na imobiliária não aceiravam receber, imprimiram o boleto bancária e falaram:





- Pague no banco, se você pagar até hoje, terá um desconto...





Até esse instante eu ainda não havia percebido a mudança do tempo, somente quando caminhava há alguns minutos em direção ao banco é que eu percebi os primeiros pingos de chuva em mim...





Perguntei a um outro pedestre se faltava muito para chegar ao banco, e ele me respondeu:





- Você anda uns cinco quarteirões, corta para a direita, anda mais uns cinco quateirões, você verá uma praça e uma igreja, então você verá esse banco.





Pensei:- Agora estou mal... se eu andar tudo isso, a chuva vai me pegar no meio do caminho...





Como sou persistente, continuei caminhando, apresadamente para o "bendito" banco, estava enfrente a uma padaria quando a chuva caiu. Entrei na padaria e percebi, o tempo havia mudado complatamente. O céu estava negro, o vento contante e frio, as gotas de chuva tão grossas que pareciam pesar sobre aqueles que se arriscassem a caminhar sobre ela.





Decidi comer um pastel e um guaraná, já que estava numa padaria, o que mais poderia fazer?





Fiquei com meu pastel e meu guaraná a olhar a chuva, pansava como voltaria, porque já não sabia onde estava. Passou-se quase uma hora, e eu já havia comido o pastel, bebido o guaraná, lido boa parte do jornal e pensado, pensado muito no que eu faria para voltar para casa naquela chuva.





Decidi sair mesmo na chuva... Os pingos cortavam geladamente minha pele, o frio doia em mim como eu nunca sentira e eu caminhava. Pensava que minha persistencia estava prejudicando a mim mesma. Depois de caminhar quase 15 minutos na chuva, parei sobre uma marquise e perguntei a um casal aonde estava. Se faltava muito para chegar ao banco. Eles falaram:





- É... você terá que andar mais cinco quarteirões, cortar a direita e andar mais uns três quarteirões.





Meus Deus! sempre faltará mais de cinco quarteirões, não importa o quanto eu caminhe... Então comecei a chorar, chorar muito, como quem sentia uma grande dor.





A mulher que estava com seu parceiro sobre a marquise aproximou-se de mim e me consolou. Disse-me que não deveria ter medo, que a chuva passaria logo. Tirou sua capa e colocou-a sobre mim, então perguntou se eu não queria esperar mais um pouco lá.





Nem preciso dizer que minha terrível persistencia me fez caminhar novamente. Dessa, vez aquecida com a capa que ganhará daquela mulher generosa.





Caminhei cerca de dez minutos e me vi, finalmente, em lugar conhecido, era uma avenida que levava a minha casa. Pensei, se eu andei até aqui, andarei até minha casa.





A chuva ainda me acompanhava quando cheguei em um banco na avenida da minha casa. Finalmente paguei o aluguel. Sai o banco com a alma lavada. O que eu não faço para ganhar um desconto! Caminhei mais trinta minutos e cheguei em minha casa.



Estava completamente molhada e suja de lama, mas cheguei. Ainda bem que sou uma mulher persistente.

Conto de Elisângela Gusmão: 21-06-2009.









Quinta-feira, Janeiro 31

ESCREVO PORQUE O INSTANTE EXISTE,
E O BLOG CARTAS E PALAVRAS LIVRES TEM QUE CONTINUAR...
Carnaval, festa da carne...
Eu sou vegetariana,
Carnaval festa da bunda...
Eu sou desbundada...
Carnaval festa de hipnóticos,
Eu busco a conscientização...
Carnaval festa do desperdício,
Eu não gosto de desperdiçar nada..
Carna- val
Carne-válida
Carne-validade vencida..
Pule e dance,
Balence a bunda até ser filmada pela globo..
Você estará no big -brother e será muito feliz...
Eternamente feliz na história da última novela das sete...
E eu, eu não gosto de TV...
Prefiro um bom livro e uma boa companhia pra conversar...
E você meu amigo leitor?
O que você prefere?
Abraços carnavalescos vegetarianos da Elis.

Sexta-feira, Outubro 12

EU E O PERNA DE PAU NAS FÉRIAS: "andando na corda banda de sombrinha".


12/10/2007 (FERIADÃO BACANA!!!)

Depois de quase 10 meses sem encontrar tempo para esse meu cantinho tão sagrado para mim, eis-me aqui novamente com as palavras, minhas fieis escudeiras.

Voltei diferente. Vajei, conheci novos lugares, aprendi coisas novas, reparti, multipliquei, amei, etc. Mas algo eu tenho a certeza de ter permanecido: a certeza de que sempre terei a fiel companhia das palavras!!!

Prestes a defender o mestrado em lingüística, a cada momento descubro como esses pequenos verbos significam para mim, às vezes me comprometo por causa deles e de suas ambigüidades, mas quase sempre são as palavras que, realmente me libertam e me permitem voar.

Me libertam porque tenho andado na corda bamba como o perna de pau da foto acima, me equibrado sobre tantos obstáculos que, somente aqueles que estão no exílio conhecem: o exílio da casa, da Terra e das origens. Mas até agora tenho caminhado, alguns passos, sempre... Aprendi a caminhas com pernas de pau também!!! E depois de quase 10 meses dedico um poema novo para todos aqueles que, como eu, amam as palavras:

O que aconteceria?

Se eu me lançasse nesse precipício agora; o que aconteceria?

O que aconteceria seu eu perdesse a minha vida?

Perdendo-a eu resolveria os meus problemas?

Ou eu me tornaria mais forte se eu me erguesse agora?

Às vezes eu fecho os olhos para o que eu preciso ver

Às vezes eu só vejo o que quero

Às vezes eu não acredito em mais nada...

Mas sei que à minha frente sempre segue alguém!

Mais forte do que eu, mais justo do que eu, mais verdadeiro do que eu!

E é por ele que eu vivo e sigo minha marcha

Há momentos em que eu não sei o que dizer

E apenas sinto...

Há dias em que eu resolvo dezenas de problemas

E para cada um deles eu procuro uma solução

Nem sempre a melhor

E nesse buscar consiste a minha existencia

E a minha esperança

De encontrar a mim mesma

Na longa estrada em que eu sigo.

Abraços amazônicos e poéticos da Elis Gusmão


Sexta-feira, Janeiro 12

Onde eu nasci, as palavras tem gosto de floresta

Ah... Belém! Se eu pudesse dizer ao mundo que tu és a Terra que eu Amo!!!

Ah... Belém! Se as palavras que eu escrevo tivessem o poder de levar- te comigo.

Mas amanhã eu devo partir. E para onde eu vou, poucos te conhecem...

Poucos sabem que onde eu nasci

As palavras tem gosto de floresta

A ainda falamos "Tu chegastes!!!"

"Égua! como tu estás bonito!!"

Poucos sabem que onde eu nasci

Os teatros são ponto de encontro do povo,

toma-se água de coco nas praças, as mangas caem nas calçadas, e os carros tem seguro contra batida de mangua (tamanha a quantidade de mangueiras!!)

Ah! Belém... se eu pudesse te levar comigo...

Se eu tivesse o dom de transformar formalidades culturais em abraços apertados como os teus,

Se eu fosse capaz de unir todos as pessoas que eu amo sobre o teu céu azul...

Mas amanhã eu devo partir...

Amanhã... porque hoje, minha querida Belém, é o teu aniversário!!!

P.S: Belém do Pará completa hoje (12/01/2007) 391 anos: Nessa cidade existe umas das maiores diversidades culturais do Brasil, um dos maiores centros de Pesquisa em fauna e flora (Museu Paraense Emílio Goeld), Universidades conceituadas (UNAMA, UFPA, UEPA), além de umas das maiores concentrações de folclore e música (Orquestras Sinfônicas e Festivais de Artes).

Belém pertence a região Norte, e já foi a Capital do País no passado...

Parabéns Belém, tu mereces o nosso encanto!

Sábado, Dezembro 23

VIDÊNCIA
Tu não me pertences
Nem eu a ti...
Mas mesmo assim, te quero unicamente comigo
Mesmo sabendo da pobreza deste sentimento
Pobre sou porque te amo
Como meu tesouro valioso
E levo comigo teu olhar generoso
Tentando partilhá-lho com o mundo
Para da minha fração ser-te exclusiva!
Mesmo sabendo que estou
À margem de um capitalismo
Que as relações torna série igual
Tento me apegar a natureza do artista
Que faz do igual a diferença
E torna único
O que é belo à vidência.
Elis
As Flores, talvez
Talvez eu devesse dar mais rosas
Rosas ao teu medo de fechar os olhos
Talvez eu devesse ficar em silêncio
Ouvir o teu tácido pensamento
Quem sabe eu mesma devesse colher as minhas flores
Porque há muito elas desabrocharam
E esperar que alguém perceba
É arriscar jamais colher um sorriso...
Nesse momento o Sol está nós
E o melhor é não esperar que ele se ponha...
Talvez eu devesse dar aos meus olhos
A terna imagem do meu perdão a toda essa ilusão
Que a esperança me fez acreditar como simples verdade.
Elis

Quarta-feira, Novembro 1

Ao Chão

Eu caminhei mil passos... Fui longe de mais, eis que agora eu percebo que tudo em mim precipitou-se... E que o momento presente é de aquietar-se, silenciar...
Eis que eu me vejo sozinha, e o mundo parece me desejar assim...
Agora todos estão assombrados com as suas promessas de companhia e eu me assumo solitária, consciente de mim.
Eis que a minha dependência tem sido de mim mesma, e quando eu estiver ao lado de alguém, juro que não me sentirei desprotegida. Sim, talvez eu celebre o momento da união, mas estarei certa de que eu sempre terei o meu próprio colo.
O momento presente é aquele em que nossos pés pisam a superfície, e nada mais de sonhos para me levar além da realidade.
O amor... Essa palavra perigosa que aprisiona tantas almas...

Eu tenho medo do amor, talvez eu queira a superfície lisa da paixão, a dureza da matéria e o frio da parede onde eu penduro o relógio...
Quero as horas mortas, os dias cinzas, as noites sem luar, quero a sonata de Chopin, quero a velocidade dos meus pensamentos, a mentira atroz.
Quero tudo e nada mais, e esse meu querer vem do meu estado de absoluto inverno...

Mas, um verão se aproxima...
E eu estarei caminhando devagar, deixando que os outros se precipitem...

Porque os que seguem a frente são os primeiros a cair ao chão,
Como eu me encontro agora.

Elisângela Alves Gusmão

Segunda-feira, Maio 1

O que Frédéric Chopin representa para mim...

Frédéric Chopin, foi sem sombras de dúvida o mair pianista que já houve...
Viveu no século dezenove, em pleno período Romântico como exilado na França, já que seu País, a Polônia, estava em crise política. Chopin, com a sua música expetacular, lutou pela libertação de seu País... Porém, para mim, o que ele melhor defendeu, foi o direito de todo homem amar e expressar seus sentimentos.
Sua música é um Hino a todos aqueles que creem que o Amor não é uma utopia.
Aproveito para dividir com todos aqueles que comparitilham desse espaço, a minha homenagem a esse homem tão singular na minha vida.

Chopin e Eu
Na solidão do meu quarto, eu ouço Chopin...
Penso no Amor e extremeço!
Quando eu poderei ser eu mesma
Sem ter medo de expressar meus sentimentos?
Quando eu poderei abrir meu coração
Sem correr o risco de ser chamada de piegas?
Oh! Quando... eu poderei deixar que minha alma
Seja conhecida mais doque meus documentos?
Na solidão da minha vida, eu ouço Chopin...
Assim como eu, ele desejou amar
Ouço sua canção
Como um hino aos que ainda acreditam no Amor
E nesses braves momentos em que sua música me toca
Eu consigo acreditar que ainda é possível ser romântico.
( Elisângela Gusmão )

Sexta-feira, Abril 21

Um livro que me aproximou da morte!!!

"... Morte onde esteve a tua vitória, sabendo no entanto que não receberá resposta, porque a morte nunca responde, e não é porque não queira, é só porque não sabe o que há-de dizer diante da maior dor humana." (página 126)

Sampre tive uma boa relação com a morte, pode até parecer loucura dizer isso, mas acho que ela não é de todo um mal... antes de ler "As Intermitências da Morte" de Saramago achava que eu era uma das poucas pessoas que pensavam assim, mas esse romance me fez perceber que realmente necessitamos da morte. Saramago personifica esse ícone da humanidade neste seu último romance, que aliás, já recebeu o Nóbel de Literatura. Tudo começa quando a morte resolve entrar em greve, provocando sentimentos paradoxais na população. Por parte da Igreja há um pânico geral, já que sem morte não há ressurreição, por parte das funerárias e agências de seguro, há um grande prejuízo, sem falar nos hospitais e outras instituições que vivem da morte... Saramago aproveita esse tema para fazer duras críticas aos meios de comunicação, ao Estado, a Igreja e a máfia, metaforizada no livro pela corrupção que se cria com o caos instalado no Páis onde a morte decide gravar. O romance pare se estruturar em duas partes, a vida sem a morte e a volta da morte. Há momentos enfadonhos na leitura, quando o autor parece usar de uma linguagem "caduca", como se estivesse resmungando com o leitor. Mas vale a pena ir até o fim do livro... Pois nele a morte se personifica e é vencida por algo que todos nós desejamos: O amor, que parece estar escondido na própria arte e na música. Há quem diga que esse fim parece meio piegas. Eu apenas deixo aqui uma reflexão:
- Por que o Amor é algo pejorativo nessa sociedade em que vivemos?

Quarta-feira, Fevereiro 15

Sala de Espera (conto)
"Estava à procura de Paz, quem sabe, também, essa tão desgastada palavra que não ouso dizer"


Era uma sala de espera como todas as outras... com um gélido ar de que o tempo não passa e pessoas tassiturnas. Eu era uma delas, a duas horas do instante em que cheguei. Sem mais nada a fazer, me pus a ouvir as queixas dos meus colegas de espera: dores...mal estares, estress, e tudo aquilo que ninguém deseja ouvir em momentos de náusea como aquele. Estava ali por pura curiosidade, talvez procurasse um pouco de paz, ou, quem sabe, essa tão desgastada palavra que não ouso dizer.
O doutor era famoso, resolvia problemas que nem Freud resolveu, me diziam. Uma colega de trabalho que nunca eu havia visto sorrir, depois de falar com o tal médico, até cantarolava pelos corredores. Fiquei intrigada. O que esse cara fez com essa criatura? Ele só pode ser um pajé...Já estavam quase a fazer uma terapia de grupo, contando seus problemas uns para os outros naquela sala, quando o famigerado chegou. Era baixo e magro, de grossas lentes e ligeiramente concurda. Uma figura exótica, poderia dizer. Chegou e disse um boa tarde como quem diz: Voltem depois!!! O primeiro paciente entrou. Passou quarenta minutos. Saiu com um semblante pior do que antes. O segundo passou apenas vinte minutos. Saiu com um leve sorriso. O terceiro passou meia hora, saiu como entrou, com cara de terror . O quarto paciente era eu...
Entrei meio sem jeito. E logo ouvi a pergunta:
- O que te trouxe aqui?
Não poderia dizer: Curiosidade!!! Então inventei um caso.
-Amo alguém que nunca existiu.
-Quem é essa pessoa? É um amigo virtual?
-Não, é um personagem de um livro. Amo esse personagem há sete anos.
-Mas isso está te prejudicando?
-Está. Ás vezes penso que ele é real, não consigo mais separar a ficção da realidade.
-Então você precisa rasgar esse livro. Queime-o. Você precisa de um homem de verdade.
Fiquei calada enquanto a figura exótica disse:
-Se quiseres...resolvo esse problema rapidinho. Está aqui o meu telefone celular, é só me ligar. Podes passar no meu apartamento hoje a noite. Garanto que não irás mais ter essas queixas.
Peguei o cartão e antes de sair respondi. Fique certo de que irei telefonar.
Como é costume de jornalista, levo meu gravador na bolsa e gosto de gravar conversas que podem me serem úteis de alguma forma.Em menos de um mês, extorqui mais de cinco mil reais do doutor. Que passou a receber minhas visitas semanalmente. Agora para falar tratar de seus próprios problemas.