Uma mulher persistente
Era uma tarde comum, sequer olhei para o céu para constatar a previsão do tempo
Sei que sai de casa às 15h, com algumas contas para pagar e com o plano de voltar o mais rápido possível para a casa.
A primeira situação que me fez perceber que algo de ruim aconteceria foi o fato de estar indo a um lugar que nunca chegava... Estava de ônibus e até mesmo o motorista desconhecia o endereço. Alguns passageiros me informaram:
- É longo, muito longo...
Mas como sou persistente, pensei, logo estarei lá. Estava indo para uma imobiliária, pagar o aluguel, depois de quase 40 minutos no ônibus, finalmente cheguei.
Na imobiliária não aceiravam receber, imprimiram o boleto bancária e falaram:
- Pague no banco, se você pagar até hoje, terá um desconto...
Até esse instante eu ainda não havia percebido a mudança do tempo, somente quando caminhava há alguns minutos em direção ao banco é que eu percebi os primeiros pingos de chuva em mim...
Perguntei a um outro pedestre se faltava muito para chegar ao banco, e ele me respondeu:
- Você anda uns cinco quarteirões, corta para a direita, anda mais uns cinco quateirões, você verá uma praça e uma igreja, então você verá esse banco.
Pensei:- Agora estou mal... se eu andar tudo isso, a chuva vai me pegar no meio do caminho...
Como sou persistente, continuei caminhando, apresadamente para o "bendito" banco, estava enfrente a uma padaria quando a chuva caiu. Entrei na padaria e percebi, o tempo havia mudado complatamente. O céu estava negro, o vento contante e frio, as gotas de chuva tão grossas que pareciam pesar sobre aqueles que se arriscassem a caminhar sobre ela.
Decidi comer um pastel e um guaraná, já que estava numa padaria, o que mais poderia fazer?
Fiquei com meu pastel e meu guaraná a olhar a chuva, pansava como voltaria, porque já não sabia onde estava. Passou-se quase uma hora, e eu já havia comido o pastel, bebido o guaraná, lido boa parte do jornal e pensado, pensado muito no que eu faria para voltar para casa naquela chuva.
Decidi sair mesmo na chuva... Os pingos cortavam geladamente minha pele, o frio doia em mim como eu nunca sentira e eu caminhava. Pensava que minha persistencia estava prejudicando a mim mesma. Depois de caminhar quase 15 minutos na chuva, parei sobre uma marquise e perguntei a um casal aonde estava. Se faltava muito para chegar ao banco. Eles falaram:
- É... você terá que andar mais cinco quarteirões, cortar a direita e andar mais uns três quarteirões.
Meus Deus! sempre faltará mais de cinco quarteirões, não importa o quanto eu caminhe... Então comecei a chorar, chorar muito, como quem sentia uma grande dor.
A mulher que estava com seu parceiro sobre a marquise aproximou-se de mim e me consolou. Disse-me que não deveria ter medo, que a chuva passaria logo. Tirou sua capa e colocou-a sobre mim, então perguntou se eu não queria esperar mais um pouco lá.
Nem preciso dizer que minha terrível persistencia me fez caminhar novamente. Dessa, vez aquecida com a capa que ganhará daquela mulher generosa.
Caminhei cerca de dez minutos e me vi, finalmente, em lugar conhecido, era uma avenida que levava a minha casa. Pensei, se eu andei até aqui, andarei até minha casa.
A chuva ainda me acompanhava quando cheguei em um banco na avenida da minha casa. Finalmente paguei o aluguel. Sai o banco com a alma lavada. O que eu não faço para ganhar um desconto! Caminhei mais trinta minutos e cheguei em minha casa.
Estava completamente molhada e suja de lama, mas cheguei. Ainda bem que sou uma mulher persistente.
Conto de Elisângela Gusmão: 21-06-2009.




